• Dr. Alexandre Barbosa

Alta recente em média de casos e mortes é lembrete de que a pandemia não acabou, diz Infectologista


Entrevista especial ao jornal Valor Econômico em 03/04/2022


Os números da pandemia no Brasil continuam muito abaixo do que os registrados no início do ano, quando um surto provocado pela variante ômicron do novo coronavírus levou a uma disparada inédita de contaminações. No início de fevereiro, o número de novos casos se aproximou de 300.000 por dia. Depois desse pico, os números passaram a cair e, na segunda-feira (2), 7.000 novos casos foram confirmados em 24 horas.

Ainda assim, nos últimos dias, os dados passaram a chamar atenção de médicos e pesquisadores. Isso porque a média móvel de novos casos passou a apresentar um leve crescimento.

Os dados compilados pelo consórcio de veículos de imprensa com base nos informes das secretarias estaduais de Saúde do país, mostraram que a média móvel de novos casos foi de 14.754 por dias ao longo de sete dias encerrados na segunda, 2 de maio. Isso significa um aumento de 4% em relação aos casos registrados em 14 dias.

O aumento do número de mortes por covid-19 foi maior. A média móvel de mortes em sete dias (encerrados ontem) foi de 126 por dia, aumento de 23% em relação às mortes pela doença registradas em 14 dias.

O que pode explicar esses aumentos e o que eles podem significar para o curso da pandemia no Brasil? O aumento de casos observado em algumas cidades chinesas e também Nova York pode ter alguma relação com o que se vê no Brasil neste momento?

Para o médico infectologista Alexandre Naime Barbosa, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, os últimos números do Brasil acendem um sinal de alerta e são um lembrete de que a pandemia não acabou.

Ao mesmo tempo, argumenta ele – que chefia do departamento de Infectologia da Unesp em Botucatu (SP) –, o país está longe de ter de adotar novamente medidas de restrição que foram implementadas nos piores momentos da pandemia quando não havia vacinação disponível.

Valor: Como o senhor avalia essa piora nos números da pandemia nos últimos dias no Brasil?

Alexandre Naime Barbosa: Quando analisamos dados epidemiológicos não podemos olhar períodos de tempo muito curtos. Realmente houve um aumento no número de casos na média móvel, de hospitalizações e de óbitos porque a pandemia é dinâmica e são esperadas que ocorram variações tanto de aumento quanto de redução desses índices. Mas estamos observando uma tendência mais longa de queda contínua tanto de casos quanto de hospitalizações e óbitos.

Valor: O que pode estar por trás do aumento nos últimos dias de casos e mortes?

Barbosa: Podemos classificar esse momento atual como um repique e temos que continuar observando a tendência. O que significa esse repique? Uma possibilidade é que seja reflexo de um represamento de dados que foram reportados depois de dois feriados consecutivos. Outra possibilidade é que tenha havido um aumento na transmissão justamente por conta desses feriados, quando sempre há mais encontros entre as pessoas. Quanto ao decreto de flexibilização ao uso de máscara será que foi precipitado? Talvez não, porque essa flexibilização aconteceu já algum tempo e o efeito já teria sido observado. O reflexo teria aparecido depois de duas a quatro semanas.


Valor: O senhor considera um cenário no Brasil que seja necessário endurecer novamente algumas medidas de prevenção à transmissão de covid?

Barbosa: Existe, sim, uma possibilidade de regressão na flexibilização das regras de prevenção contra covid ou contra qualquer outra epidemia de transmissão respiratória. É preciso que essas medidas sejam uma via dupla, podendo tanto ir para o lado da flexibilização quanto para o lado do enrijecimento. Nós ainda estamos lidando com uma transmissão comunitária. Lembrando que nós não estamos mais naquela situação de abril ou maio de 2020, quando não havia intervenções, não havia medicações e a gente não conhecia o vírus. Hoje, a gente tem uma linha de cuidados, de vacinas a medicações. Tudo isso mudou como a gente passou a lidar com as políticas de intervenção.

Valor: No Brasil, o cenário de volta de medidas de restrição à circulação de pessoas está fora de horizonte?


Barbosa: Hoje, já não é provável, não é factível que no Brasil tenhamos necessidades de um lockdown porque, hoje, temos uma população extremamente vacinada. Claro que temos que avançar muito ainda com a terceira dose na população geral e com a quarta dose nas populações específicas mais vulneráveis. Mas nós temos uma população altamente vacinada e é improvável que haja um aumento exponencial no aumento de hospitalizações e de óbitos e que leve a uma situação de caos no sistema de saúde que seja necessário um lockdown. Mas algumas regras podem ser revistas. Em Nova York, por exemplo, eles têm uma classificação de risco leve, risco médio, alto e risco muito alto, que é quando se faz necessário um lockdown.

Valor: Esse aumento recente nos números no Brasil deve ser motivo de preocupação?

Barbosa: A janela de tempo que a gente está observando ainda é muito curta para dizer se há uma tendência de elevação ou se esses aumentos são um repique e que vai voltar a cair nos próximos dias. Claro que [esse aumento] levanta uma bandeira para que a gente fique de olho. E não é porque os números estavam caindo antes que a gente deveria deixar de fazer essa vigilância. Nós ainda estamos lidando com uma transmissão comunitária.

Valor: O comportamento e as regras no Brasil em relação à pandemia praticamente voltaram ao que era antes da pandemia – embora ela não tenha acabado. Como o senhor avalia isso?

Barbosa: O que falta são campanhas de conscientização e quem está fazendo isso somos nós, a sociedade. Campanhas para explicar que a pandemia ainda está acontecendo. Sim, é possível que a gente tenha algumas atividades normais na vida, mas que esse processo é dinâmico e podem haver momentos de piora e as regras podem ser enrijecidas e depois momentos de melhora. Só não é plausível que voltemos a um estado, como aconteceu por exemplo no pior momento da pandemia com a variante gama, em abril, maio e junho do ano passado, ou o que aconteceu com a ômicron no começo do ano.

Valor: A ômicron continua sendo dominante?


Barbosa: Praticamente 100% dos vírus detectados são ômicron e subvariantes da ômicron. Mas o impacto disso [das subvariantes] em relação à transmissão e ao maior risco de adoecimento ainda não foi confirmado. A ômicron substituiu completamente o vírus original e vão surgir cada vez mais variantes da ômicron. O importante é saber se essas variantes têm algum impacto. Por enquanto, não.


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