• Dr. Alexandre Barbosa

Vamos eliminar ou conviver com o coronavírus? Cientistas traçam cenários para partir de 2022


Entrevista do Prof. Dr. Alexandre Naime Barbosa ao Jornal O Globo em 24/07/2021, link no final da matéria

Um artigo publicado na revista científica JAMA (Journal of the American Medical Association) traz quatro possíveis cenários sobre como será a vida pós-pandemia. Segundo pesquisadores da Universidade Brown, nos EUA, no futuro poderemos observar situações de erradicação, eliminação, coabitação e conflagração.

Estes panoramas, dizem os especialistas, vão depender principalmente do avanço da vacinação no mundo, da qualidade das vacinas e do surgimento de variantes.

No Brasil, os especialistas consideram mais prováveis situações de coabitação e, a longo prazo, até de eliminação. A erradicação significa ter a circulação do Sars-CoV-2 próxima a zero, como aconteceu com a varíola, por exemplo.


“A imunidade derivada da vacina e da infecção teria que ser altamente eficaz, duradoura, capaz de prevenir a transmissão secundária e a reinfecção e proteger contra todas as formas de variantes”, afirmam os pesquisadores, reconhecendo a meta como “muito ambiciosa”.

Outro complicador para a erradicação é que, além dos seres humanos, há reservatórios animais do vírus, como em morcegos e martas. Assim, a vacinação teria que ser contínua de qualquer forma.

Já a eliminação surge como um objetivo mais realista, assim como aconteceu com o sarampo e a rubéola. Nesse caso, a redução é regional, e não global, mas a prevalência da doença pode chegar a zero em regiões com alta cobertura vacinal.

O cenário mais plausível, no entanto, seria a coabitação com o vírus, graças à proteção oferecida pelas vacinas, prevenindo as manifestações mais graves da Covid-19, diminuindo a cadeia de transmissão e combatendo a maioria das variantes.


Assim, surgiriam bolsões livres de Sars-CoV-2, mas, na maioria dos lugares, ainda persistiriam infecções em níveis mais baixos, principalmente entre os não vacinados. À medida que o acesso à vacina se expandir globalmente e a geração de variantes for reduzida, o número de áreas livres de vírus pode crescer, mas provavelmente seriam necessários reforços vacinais.


Pequenos surtos poderiam ocorrer, exigindo medidas preventivas, como uso de máscaras e distanciamento social.

“No longo prazo, entretanto, à medida que a imunidade global, devido à exposição ou vacinação, se torna comum, os sintomas da doença experimentados podem vir a se assemelhar aos do resfriado comum, que é provocado por coronavírus sazonais”, dizem os autores.

Essa é também a aposta da epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo:

— No Brasil, a pandemia ainda está descontrolada, então é difícil pensar no pós. Como aqui as pessoas querem se vacinar, mas ainda faltam doses, acho que estaremos mais próximos de um cenário de coabitação assim que atingirmos 80% das pessoas vacinadas, incluindo adolescentes. Vamos ter o vírus circulando ainda, além de surtos, só que de forma mais controlada. No entanto, até o fim do ano devemos seguir no cenário de conflagração.

Este último panorama descrito pelos especialistas de Brown, que deve perdurar por um longo tempo em algumas regiões, consiste em: grande parte da população sem vacinação completa, além da circulação alta do Sars-Cov-2, provocando muitas internações e mortes. Contribuem para essa situação o surgimento de variantes e vacinas que não são 100% eficazes.

O epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, vê uma redução do atual momento de conflagração até o fim de 2022.

— Vamos ficar até o fim deste ano nessa situação de números altos, numa coabitação muito forte. No primeiro semestre de 2022, teremos uma coabitação mais frágil, com o vírus mais raro. No segundo semestre, acho que podemos entrar no cenário de eliminação.

A evolução ou não para um cenário depende muito do próprio vírus, segundo o chefe da infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Alexandre Naime Barbosa. A erradicação, como aconteceu com a varíola, por exemplo, é um objetivo difícil de se conseguir para vírus respiratórios, que têm fácil transmissão e contra os quais dificilmente as vacinas são tão efetivas.

Para ele, à medida que os imunizantes sejam aprimorados e o vírus deixe de ser tão patogênico, “que é o que parece estar acontecendo”, é possível passar para uma situação de coabitação.

— Em estudos, a variante Delta demonstra ter menos incidência de tosse e febre, ou seja, o vírus ficou menos sintomático e mais transmissível. Ele pode ir perdendo agressividade, porque não quer matar, quer transmitir e coabitar. O Sars-CoV-2 pode vir a causar um resfriado comum, aí falaríamos em coabitação. Já convivemos com vários vírus sem grandes problemas.

Apesar de estarmos acostumados com o vírus influenza, por exemplo, ele ainda configuraria um cenário de conflagração, pois provoca muitas mortes, especialmente em idosos. No entanto, a taxa de mutação do influenza é quase o triplo do vírus causador da Covid-19.

— O Sars-CoV-2 está mutagênico agora porque está descontrolado. Com cobertura vacinal ampla, vai coabitar. Por enquanto, é guerra, depois conflito mais light e aí coabitação — explica Naime Barbosa.

Os autores do estudo reforçam a necessidade de “escolhas coletivas da comunidade global” para definir como será o futuro:

“Hoje, a experiência global é amplamente divergente. Israel, Nova Zelândia, Vietnã e Brunei podem muito bem estar se aproximando da eliminação. O Reino Unido, os EUA e a China, por sua vez, parecem coabitar. Em contraste, a Índia, outras partes do Sudeste Asiático e grande parte da América do Sul parecem estar sob o peso de um estado semelhante a uma conflagração. Como cada país estará dependerá das escolhas e realidades coletivas da comunidade global e da dinâmica frequentemente inescrutável e talvez imprevisível do Sars-CoV-2”.


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